Desinformação sobre a próstata ainda atrasa a descoberta de doenças
- 09/09/2026
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Hiperplasia Prostática Benigna afeta grande parte da população masculina com o avanço da idade e pode provocar alterações urinárias; falta de informação e demora na busca por atendimento podem agravar o quadro
A falta de conhecimento sobre a saúde da próstata pode fazer com que muitos homens demorem a procurar atendimento médico diante dos primeiros sinais de alterações urinárias. Um estudo realizado por pesquisadores na China aponta que mais da metade dos homens com 50 anos ou mais não possui informações suficientes sobre a Hiperplasia Prostática Benigna (HPB), uma condição bastante comum entre a população masculina mais velha.
Publicado em julho na revista científica Neurourology Urodynamics, o levantamento analisou 444 questionários coletados entre 2023 e 2024. Entre os participantes, 191 tinham entre 60 e 69 anos.
A Hiperplasia Prostática Benigna é caracterizada pelo aumento não maligno da próstata e está diretamente relacionada ao processo de envelhecimento. Embora seja uma condição frequente, ela ainda é pouco conhecida por muitos homens e, em alguns casos, seus sintomas acabam sendo tratados como uma consequência natural da idade.

Entre os sinais mais comuns estão dificuldade para iniciar a urina, jato urinário fraco ou interrompido, sensação de que a bexiga não foi completamente esvaziada, aumento da frequência urinária durante o dia, necessidade de levantar várias vezes à noite para urinar e urgência para chegar ao banheiro. Também pode ocorrer incontinência urinária, com escapes involuntários de urina.
Segundo o urologista Marcelo Wroclawski, coordenador da área de Hiperplasia Prostática Benigna do Departamento de Disfunção Miccional da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a condição atinge aproximadamente metade dos homens com mais de 50 anos e quase 90% daqueles acima dos 80.
Sintomas não devem ser considerados apenas consequência da idade
Reconhecer os primeiros sinais é importante para evitar que o homem simplesmente aceite as mudanças urinárias como parte inevitável do envelhecimento.
Além dos impactos físicos, o problema pode afetar diretamente a qualidade de vida. Alguns homens passam a reduzir o consumo de líquidos, evitam viagens ou atividades prolongadas fora de casa e organizam a rotina de acordo com a disponibilidade de banheiros.
A necessidade constante de interromper atividades para urinar também pode prejudicar o sono, a convivência social e até a vida sexual.
Para o urologista Gustavo Caserta Lemos, do Einstein Hospital Israelita, a demora em buscar ajuda pode estar relacionada à falta de informação, vergonha ou dificuldade de acesso aos serviços de saúde.
Obstrução urinária pode afetar bexiga e rins
A próstata está localizada próxima à uretra, canal responsável por transportar a urina para fora do organismo. Quando ocorre o crescimento da glândula, a uretra pode ser comprimida, dificultando a passagem da urina.
Com isso, a bexiga precisa trabalhar com maior intensidade para conseguir eliminar o conteúdo. Se essa situação permanece por muito tempo, podem ocorrer alterações na musculatura da bexiga, que passa a perder parte de sua capacidade de funcionamento.
Em situações mais avançadas, podem surgir pequenas bolsas na parede da bexiga, conhecidas como divertículos, além de favorecer a formação de cálculos.
Outro possível problema é o acúmulo de urina após a micção. Em casos graves, pode ocorrer retenção urinária, inclusive com obstrução completa.
Quando isso acontece, a urina produzida pelos rins encontra dificuldade para ser eliminada. A pressão provocada pelo acúmulo pode causar dilatação das estruturas renais e, em situações mais graves, comprometer a função dos rins.
Hiperplasia não é câncer de próstata
Um dos pontos mais importantes para os homens é entender que a Hiperplasia Prostática Benigna não é câncer de próstata.
Na HPB, ocorre o crescimento benigno das células, principalmente na região central da próstata, podendo provocar sintomas relacionados à passagem da urina.
Já o câncer de próstata geralmente se desenvolve na região periférica da glândula e, principalmente nas fases iniciais, pode não apresentar sintomas.

Por essa razão, a ausência de alterações urinárias não significa que o homem esteja livre de problemas na próstata.
O acompanhamento médico periódico é importante para a identificação precoce de possíveis doenças. O diagnóstico em fases iniciais aumenta as possibilidades de tratamento e pode contribuir para melhores resultados.
A recomendação apresentada pelos especialistas é que os homens iniciem o acompanhamento urológico de rotina a partir dos 45 anos, mesmo quando não apresentam sintomas.
Crescimento da próstata varia de homem para homem
Embora o crescimento da próstata esteja relacionado ao envelhecimento, a evolução da HPB não acontece da mesma maneira em todos os homens.
De acordo com Gustavo Caserta Lemos, o crescimento pode ser bastante lento em alguns pacientes, que eventualmente nunca precisarão de tratamento. Em outros, os sintomas aparecem a partir da sexta década de vida. Há ainda uma parcela menor de homens em que o crescimento é mais acelerado e os problemas podem surgir ainda na quinta década.
Por isso, o acompanhamento médico permite avaliar individualmente cada caso e determinar quando uma intervenção é necessária.
Tratamentos dependem de cada paciente
O tratamento da Hiperplasia Prostática Benigna varia conforme o tamanho da próstata, a intensidade dos sintomas, as condições de saúde do paciente e o impacto da doença na qualidade de vida.
As opções incluem medicamentos, procedimentos minimamente invasivos e diferentes técnicas cirúrgicas.
Entre os medicamentos, o urologista Marcelo Wroclawski cita a silodosina, recentemente disponibilizada no Brasil, que atua relaxando a musculatura da próstata e do colo da bexiga, facilitando a passagem da urina.
Também existem procedimentos minimamente invasivos realizados pelo canal urinário. Entre eles estão técnicas que utilizam vapor d'água, implantes prostáticos e stents temporários.
Dependendo do procedimento e das características do paciente, algumas dessas alternativas podem ser realizadas sem necessidade de internação e podem apresentar vantagens relacionadas à preservação da ejaculação.
Nos casos em que a próstata apresenta grande aumento e a cirurgia é indicada, existem técnicas abertas e robóticas. Também são utilizados procedimentos realizados pela uretra, como a ressecção transuretral da próstata, conhecida como RTU.
A técnica consiste na retirada da parte central aumentada da próstata por meio de instrumentos introduzidos pelo canal urinário. O procedimento pode utilizar energia elétrica ou plasma.
Tecnologias mais recentes, como o laser, também estão disponíveis em determinadas situações. A escolha do método, entretanto, deve ser feita pelo urologista de acordo com as características de cada paciente.
Diagnóstico e tratamento precoces podem evitar complicações
Os especialistas alertam que deixar a Hiperplasia Prostática Benigna evoluir sem acompanhamento pode provocar alterações permanentes na bexiga.
Quando o tratamento é realizado somente em uma fase mais avançada, a retirada da obstrução pode não ser suficiente para recuperar totalmente o funcionamento da bexiga.
Por isso, a orientação é não ignorar sintomas urinários persistentes e não atribuí-los automaticamente ao envelhecimento.
A avaliação com um urologista permite identificar a causa das alterações, acompanhar a evolução da próstata e determinar, quando necessário, o tratamento mais adequado.
Mais do que uma questão de idade, cuidar da saúde da próstata significa estar atento aos sinais do próprio organismo e procurar orientação profissional diante de mudanças persistentes.












