Assistente social vítima de violência expõe realidade de agressões contra mulheres; interior de SP registra um caso a cada 14 minutos

  • 08/03/2026
(Foto: Reprodução)
Assistente social Lucinete Aparecida Santiago Lima, conhecida como Lucy Lima, de Presidente Prudente (SP) Lucy Lima/Arquivo pessoal Nos últimos 10 anos, o interior de São Paulo registrou mais de 357 mil casos de lesão corporal dolosa - quando há intenção - contra a mulher, conforme dados do painel da violência da Secretaria de Segurança Pública (SSP), analisados pelo g1. No oeste paulista, entre as mulheres que já foram vítimas de violência, está a assistente social Lucinete Santiago Lima, conhecida por Lucy Lima. O período analisado foi de 2015 a 2025. Nesse intervalo, cerca de 59% dos casos registrados no estado de São Paulo ocorreram no interior. 📲 Participe do canal do g1 Presidente Prudente e Região no WhatsApp Somente em 2025, o interior de SP somou 38.437 casos de lesão corporal dolosa contra a mulher. Isso representa uma média de 105 casos por dia, ou quase um caso a cada 14 minutos. Conforme a atualização mais recente do painel da SSP, em janeiro deste ano, foram 3.772 casos, quase 12% a mais que o mesmo período de 2025, com 3.376 registros de lesão corporal dolosa. Na última reportagem da série "Histórias que inspiram", o g1 relembra a trajetória da assistente social Lucy Lima, que ressignificou anos de violência doméstica. A moradora de Presidente Prudente (SP) fez parte da estatística acima por mais de uma década. LEIA MAIS: 'HISTÓRIAS QUE INSPIRAM': conheça mulheres que fazem a diferença no oeste paulista “Quando de fato consegui me libertar, depois de um momento de desespero e tentativa de suicídio, onde eu estava com uma garrafa de álcool nas mãos e o fósforo na outra, andando no corredor de uma casa alugada, ‘ouvi’ uma voz dizendo ‘não faça isso’. Voltei chorando ao banheiro e comecei a conversar em frente ao espelho”, relembra. Reconhecimento A imagem que Lucinete via no reflexo era ela, de certa forma, mas também a Lucy, nome que adotou após superar a violência. “Comecei a conversar com a Lucy no espelho, que me disse palavras de empoderamento, de ânimo e, naquele momento, senti uma fé muito grande dentro de mim, como se a Lucy estivesse nascendo.” Na época, em 2012, ela estava grávida de seis meses, fruto de um estupro cometido pelo próprio marido. Ela já tinha três filhos que tinha com o mesmo homem, três meninos e uma menina. Hoje, eles têm idades de 21, 18, 16 e 13 anos. “Eu não tinha uma rede de apoio e também não podia contar com ninguém, os filhos sofriam junto comigo, e ninguém se metia, todos tinham medo, amigos, vizinhos e até o agente de saúde, minha família…" Como ocorre em muitos casos, o agressor era sempre presente na vida da vítima e dos filhos, impedindo que Lucy seguisse seu caminho. Mesmo assim, ela viu uma oportunidade a partir de uma propaganda de vestibular na rua. A quebra de ciclo da violência aconteceu quando Lucy passou em um concurso público e foi chamada para assumir um cargo na área de gestão. “Mudou minha história e a dos meus filhos”, celebra. “Me organizei e, em 2013, comecei a faculdade de serviço social, incentivada pela minha mãe, que nunca soube o que eu passava. Hoje, ela, com 79 anos, ainda não sabe. Preferi poupá-la.” Assistente social Lucinete Aparecida Santiago Lima, conhecida como Lucy Lima, de Presidente Prudente (SP) Lucy Lima/Arquivo pessoal Encerrar o ciclo da violência A mãe de Lucy também foi vítima de violência doméstica por mais de 20 anos. Atualmente, ela mora em Campinas e usa cadeira de rodas devido às sequelas deixadas pelas agressões, segundo a assistente social. Lucy finalizou o curso superior em 2017, já separada do agressor, e, a partir de então, atua na área, ressignificando essa época da vida ao ajudar outras mulheres a lidar com situações parecidas, por meio de acolhimento e palestras. Já como metas futuras, a assistente social pretende abrir uma ONG. “Porque jamais vamos conseguir nos libertar das sequelas, convivemos com elas. Eu ainda me olho no espelho e vejo os dentes tortos de murros que recebi, porém, a vontade de viver me traz sempre um sorriso tímido e de esperança. A cura está em um propósito: ser a rede de apoio de alguém. Eu não tinha ninguém na época em que passei pelo ciclo da violência doméstica e cada mulher tem um tempo para superar.” Análise coletiva Professora, pesquisadora e feminista, Carolina Simon é doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), além de ser militante da Frente Pela Vida das Mulheres em Presidente Prudente. Os estudos que ela aborda dialogam com as Geografias Feministas, a Saúde Coletiva e os processos de enfrentamento à violência contra as mulheres. Ao g1, a especialista descreve um dos motivos para os casos de violência contra a mulher ocorrerem, principalmente, em cidades do interior, como reforçam os dados estatísticos no estado de São Paulo. “Na minha concepção, o feminicídio é um fenômeno geográfico composto por uma série de injustiças espaciais e complexidades territoriais. Nós temos que entender que a rede especializada de combate à violência contra a mulher é extremamente centralizada nas capitais, nas cidades maiores.” Corpo de mulher baleada pelo ex-companheiro é enterrado em Botucatu LEIA TAMBÉM: 10 B.O.s REGISTRADOS: vítima de feminicídio registrou 10 boletins de ocorrência e teve dois pedidos de medida protetiva negados antes de ser assassinada pelo ex PARTE DO BRAÇO AMPUTADO: mulher atacada pelo filho com facão e abandonada na piscina da casa da família tem parte do braço amputado no interior de SP 'RED PILL': entenda o movimento misógino associado a influenciador Thiago Schutz detido por agressão à namorada COMPANHEIRO PRESO: mulher sofre traumatismo craniano após ser agredida com paulada em Angatuba; companheiro foi preso Em dimensões continentais, o Brasil possui 5.570 municípios, onde mais de 80% são municípios pequenos, segundo Carolina. “Pensar a violência em municípios do interior é pensar na produção de políticas públicas voltadas para a complexidade do interior. “ “As mulheres em situação de violência em cidades pequenas e médias têm grande dificuldade de estabelecer rotas de fuga da violência, porque os agressores conhecem as pessoas e a cidade, por ser pequena, não permite uma ampla mobilidade dessas mulheres”, continua. Carolina reforça que a violência doméstica cometida no interior precisa ser analisada e pensada dentro da complexidade que ela carrega. “Por isso que digo que o feminicídio é um fenômeno geográfico, porque nós precisamos de soluções regionalizadas para dar conta de um país de dimensões continentais.” Professora, pesquisadora e feminista, Carolina Simon Carolina Simon/Arquivo pessoal Luta contínua As mulheres conquistaram diversos espaços ao longo dos anos e lutam constantemente para que esses direitos se mantenham, como a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), Lei do Feminicídio (13.104/2015), Lei do Stalking (14.132/21) e a Lei do Minuto Seguinte (nº 12.845/2013). No entanto, a pesquisadora pontua que a luta feminista contra o movimento patriarcal nunca será uma luta justa, porque o último é um sistema estrutural na sociedade. “Pensando no tanto que nossas ancestrais conquistaram e no que precisa ainda ser conquistado, é inegável pensar, ainda mais no marco do 8 de março, na luta das mulheres trabalhadoras.” “Nós precisamos pensar, por exemplo, na escala 6x1, como uma luta das mulheres trabalhadoras para que se tenha o direito básico de vida para além do trabalho. Nós também precisamos conquistar os espaços de poder e decisão”, analisa. Além dos contextos citados, há também a importância da rede de atendimento à mulher, como delegacias especializadas, redes compostas por casas-abrigo, que somente 20% dos municípios brasileiros apresentam esses equipamentos de alta complexidade, segundo a pesquisadora. ‘Nós temos leis que são excelentes, mas ainda não temos a efetivação das políticas públicas para que realmente possamos salvar a vida das mulheres”, completa a ativista Carolina Simon. Initial plugin text Veja mais notícias no g1 Presidente Prudente e Região VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM

FONTE: https://g1.globo.com/sp/presidente-prudente-e-regiao/noticia/2026/03/08/assistente-social-vitima-de-violencia-expoe-realidade-de-agressoes-contra-mulheres-interior-de-sp-registra-um-caso-a-cada-14-minutos.ghtml


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